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ALFRED HITCHCOCK

Alfred Hitchcock é um dos cineastas mais comentados, biografados e reverenciados de todos os tempos. É difícil escrever sobre ele sem a sensação de estar repetindo o que todos sabem, ou pelo menos o que todos deveriam saber há muito tempo. Mais difícil ainda é buscar novos ângulos para a análise de suas obras e de sua vida.

BIOGRAFIA
     Ele já foi tratado como um simples artesão, como um mero empregado dos estúdios, repetindo a mesma fórmula para garantir bilheterias, mas também já foi alçado à condição de gênio, de grande autor, principalmente depois que os franceses da Nouvelle Vague (Truffaut à frente) promoveram uma releitura respeitosa (e quase sempre precisa) de seus principais filmes. Então, quem é o verdadeiro Hitchcock?

Antes de tudo, era um trabalhador do cinema. No sentido proletário do termo. Ao contrário dos diretores da atualidade, que são empresários, muitas vezes multi-milionários, e que se envolvem diretamente na produção de seus filmes, Hitch manteve sua vida dentro da câmara, preocupando-se, essencialmente, com o que o público assistiria. Decidir o enquadramento sempre foi mais importante que decidir o orçamento. Talvez por isso, ele conseguia imprimir aos seus filmes um caráter, ao mesmo tempo, autoral e popular.

Hitch dominava a linguagem e conhecia como ninguém os recursos técnicos que a indústria poderia lhe proporcionar, mas parecia sempre mais disposto a brincar com o público (inclusive aparecendo rapidamente em seus filmes) do que a agradar aos chefões.

Hitchcock nasceu na Inglaterra, teve uma rígida educação jesuíta e pretendia seu engenheiro, mas acabou, ainda bem jovem, desenhando legendas de filmes mudos numa produtora londrina. Na década de 20, com o cinema ainda numa fase romântica, a diferença entre desenhar legendas e dirigir um filme ainda não era tão grande. Depois de um breve período de aprendizado, como assistente de direção e montador, em 1925 fez seu primeiro filme, nunca concluído, "The pleasure garden", obra ainda medíocre. Em 1926, contudo, já assina "The Lodger", uma história com Jack, o Estripador, demonstrando grande talento. Daí por diante, não parou mais de filmar.

Sua "fase inglesa" vai até 1949, quando David Selznick o leva para os Estados Unidos. Em Hollywood, a personalidade reservada de Hitch, pouco afeita a festas e badalações, contribuiu para criar a sua aura de "senhor do suspense e do mistério". Na verdade, o que ele queria era filmar. E filmava como ninguém. Já começou ganhando um Oscar com "Rebecca", e foi afirmando-se como um cineasta capaz de extrair bons filmes até de argumentos fracos.

Como sua produção era muito extensa, e sempre no ritmo ditado pelos estúdio, teve momentos de maior ou menor qualidade. Mas quem vai negar os acertos de "Psicose", "Vertigo", "Disque M para matar", "Os pássaros", "Intriga internacional" e "O homem que sabia demais"? O estilo de Hitchcock, que combina realismo na ação, uma certo maneirismo na construção dos personagens e extrema inventividade na narrativa visual (resultante, antes de tudo, de uma decupagem brilhante e sofisticada), já foi muito copiado, mas, como acontece com obras e autores de exceção, não pode servir de paradigma para ninguém. Hitchcock foi um dos grandes. E ponto final.

D E S T A Q U E


OS PÁSSAROS

"Em "Os Pássaros" (The Birds), de 1963, Alfred Hitchcock demonstra, como em vários outros momentos de diversas obras suas, o raro domínio sobre a linguagem cinematográfica que lhe é bem próprio. Certamente o trecho mais contundente de "Os Pássaros", para ilustrar a singular habilidade do cineasta inglês, é a sequência em que a protagonista Melanie se dirige até a casa de Mitch: primeiro o percurso feito de automóvel e, principalmente, a travessia da Bodega Bay de barco são um excelente exemplar do produto cinematográfico em seu estado mais puro e essencial; toda a sequência é contada através, e tão somente, de imagens, sem trilha ou diálogos. Não fosse pela sonorização, seria um completo retorno ao cinema mudo. O aspecto interessante e a beleza dessa sequência, claro, não advém de um mera saudade dos tempos iniciais do cinema; Hitch, como grande manipulador, mantém o espectador em um estado de tensão crescente, à medida que Melanie se aproxima da casa de Mitch. A partir do motor do barco ligado, a câmera mostra, alternadamente, a visão de Melanie da casa de Mitch do outro lado da baía e um plano objetivo em que se vê o barco vindo de frente e a vastidão do mar e do céu ao fundo. Essa alternância de planos e a longa duração da sequência, que mostra todo o percurso de Melanie, sugere ao espectador que algo de extraordinário está na iminência de acontecer. E reafirmando, tudo se desenrola sem qualquer locução, diálogo e, principalmente, sem música, que costuma ser ponto forte e essencial em outros filme de Hitchcock, como "Frenesi" e, talvez maior exemplo disso, "Psicose". O suspense é mantido até o final da sequência, sem que nada de inesperado ocorra; apenas quando Melanie faz o caminho de volta ocorre o primeiro ataque dos pássaros: uma gaivota investe inexplicavelmente contra a cabeça de Melanie.

Um dos elementos fundamentais geradores da atmosfera de tensão que recobre quase todo o desenrolar do filme é a falta de explicação do súbito comportamento agressivo dos pássaros de Bodega Bay. O que dá margem, inclusive, à uma sequência deliciosamente cômica, quando vários do habitantes da região discutem sobre o problema dos pássaros em um bar, com destaque para o contraste entre a ornitóloga cética e o bêbado apocalíptico. O absurdo do comportamento dos pássaros que, inexplicável e violentamente, agridem as pessoas às enxurradas e de modo intermitente, acaba por aumentar a angústia do espectador, que não sabe o que esperar para a cena seguinte. Aí é que Hitchcock brinca com nossas expectativas, nos surpreendendo com um violento ataque ou com uma, não menos estranha, quietação momentânea dos pássaros.

Outro grande ponto a favor de Hitch é o resultado obtido pelo filme sem a disponibilidade das atuais técnicas de computação gráfica, de criação de efeitos visuais. Isso só prova a tese de que não se faz uma boa obra cinematográfica apenas com muito dinheiro e alta tecnologia; é fundamental ao menos um domínio razoável das técnicas da linguagem fílmica. Apesar de várias montagens fotográficas utilizadas por Hitch para algumas das cenas de ataque dos pássaros, ele teve de usar também pássaros reais e treinados, inúmeros deles. Os ataques eram simulados, sendo os pássaros muitas vezes atraídos com comida, além dos pássaros empalhados para completar a multidão que se põe atrás de Melanie, enquanto ela fuma num banco da escola de Bodega Bay. Mas provavelmente "Os Pássaros", se realizado pelo mesmo Hithcock nos dias de hoje, teria um impacto ainda maior em suas cenas mais violentas. Mas enfim, infeliz do cineasta que faz uso gratuito dos efeitos especiais hoje disponibilizados por Hollywood e mais infeliz o espectador que se dispõe a ver um filme atraído apenas por tais efeitos: mútua mediocridade que fere o status artístico do cinema.

Neste filme é demonstrada a preferência de Hitch por estúdios, em detrimento das locações. Na seqüência inicial, quando Tippi Hedren, vista de longe, atravessa a rua em São Francisco, o cenário é São Francisco mesmo. Mas quando ela chega à calçada e passa por trás de um poste, sem que se perceba o corte, a cena já é de estúdio: ela leva o assobio de um garoto e, ao se aproximar da loja de pássaros, Hitchcock sai pela porta com os dois cachorros - tudo isso era o estúdio da Universal..., segundo as palavras de Ruy Castro.

O final é mais uma genial "brincadeira" de Hitch que, contrariando o roteiro original, deixou o filme sem desfecho, o que, sem dúvida incomoda grande parte, talvez a maioria do público. Após a terrivelmente angustiante fuga dos protagonistas da casa de Mitch, em meio a um sem número de pássaros, o carro que os leva segue em direção à ponte de São Francisco e o filme é interrompido num plano geral, sem ao menos o famigerado "The End", tradicional e corriqueiro à época de "Os Pássaros". Originalmente eles chegariam à ponte, então tomada por pássaros. Tal alternativa também não daria cabo do enredo, mas seria um pouco menos angustiante e enigmático. Hitchcock, contudo, optou por "deixar no ar", em lugar de criar uma idéia de inexorabilidade do apocalipse causado pelos pássaros."

Ficha Técnica
Título Original: The Birds
Gênero: Suspense
Tempo de Duração: 114 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1963
Estúdio: Universal Pictures / Alfred J. Hitchcock Productions
Distribuição: Universal Pictures
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter, baseado em estória de Daphne Du Maurier
Produção: Alfred Hitchcock
Direção de Fotografia: Robert Burks
Desenho de Produção: Robert F. Boyle
Figurino: Edith Head
Edição: George Tomasini

Elenco
Rod Taylor (Mitch Brenner)
Jessica Tandy (Lydia Brenner)
Suzanne Pleshette (Annie Hayworth)
Tippi Hedren (Melanie Daniels)
Veronica Cartwright (Cathy Brenner)
Ethel Griffies (Sra. Bundy)
Charles McGraw (Sebastian Sholes)
Ruth McDevitt (Sra. MacGruder)
Lonny Chapman (Deke Carter)
Doodles Weaver (Pescador)
Malcolm Atterbury (Deputado Al Malone)
Alfred Hitchcock (Homem saindo da loja de animais com cães)





1925 - The pleasure garden


1927 - Easy virtue


1928 - Champagne


1929 - Juno and the Paycock


1932 - O mistério número 17 (Number seventeen)


1934 - O homem que sabia demais (The man who knew too much)


1936 - O marido era o culpado (Sabotage)


1939 - A estalagem maldita (Jamaica inn)


1941 - Suspeita (Suspicion)


1943 - A sombra de uma dúvida (Shadow of a doubt)


1946 - Interlúdio (Notorious)


1949 - Sob o signo de capricórnio (Under capricorn)


1952 - A tortura do silêncio (I confess)


1955 - Ladrão de casaca (To catch a thief)


1958 - O homem errado (The wrong man)


1960 - Psicose (Psycho)


1966 - Cortina rasgada (Torn curtain)


1976 - Trama diabólica (Family plot)

 


1926 - The lodger


1927 - O ring (The Ring)


1929 - Assassinato (Murder)


1929 - O ilhéu (The manxman)


1932 - Ricos e estranhos (Rich and strange)


1935 - Os 39 degraus (The 39 steps)


1937 - Young and innocent


1940 - Correspondente estrangeiro (Foreign Correspondent)


1941 - Um casal do barulho (Mr. and Mrs. Smith)


1943 - Um barco e nove destinos (Lifeboat)


1947 - Agonia de amor (The paradine case)


1950 - Pavor nos bastidores (Stage fright)


1954 - Disque M para matar (Dial M for muder)


1956 - O homem que sabia demais (The man who knew to much)


1958 - Um corpo que cai (Vertigo)


1963 - Os pássaros (The birds)


1969 - Topázio (Topaz)




1927 - Downhill


1928 - A mulher do fazendeiro (The farmer`s wife)


1929 - Chantagem e confissão (Blackmail)


1931 - The skin game


1933 - Waltzes from Vienna


1936 - O agente secreto (The secret agent)


1938 - A dama oculta (The lady Vanishes)


1940 - Rebeca, a mulher inesquecível (Rebecca)


1942 - Sabotador (Saboteur)


1945 - Quando fala o coração (Spellbound)


1948 - Festim diabólico (Rope)


1951 - Pacto sinistro (Strangers on a train)


1954 - Janela indiscreta (Rear window)


1956 - O terceiro tiro (The trouble with Harry)


1959 - Intriga internacional (North by northwest)


1964 - Marnie - Confissão de uma ladra (Marnie)


1972 - Frenesi (Frenzy)